GEOGRAPHIES OF MEMORY
There is a moment, while walking, when the landscape ceases to exist outside us. It enters the body. It becomes a way of seeing.
It is from this moment of lucid disorientation that Stefanie Pullin’s work emerges. Her paintings do not represent the forest so much as inhabit its rhythms. They are less images of nature than spaces in which memory, perception and matter converge…”
For Pullin, painting begins with listening: with walking, with looking, with allowing a place to settle slowly beneath the skin. The landscape is never simply reproduced. It is remembered, fragmented and reconfigured through layers of colour, lines and dense pictorial matter. What emerges is an inner geography - a space suspended between the world we inhabit and the one we carry within us.
Her process moves inward and downward. Paint accumulates like sediment; surfaces become sites of immersion and emergence. Forests, stones, moss and roots appear not as motifs but as living presences, carrying traces of geological time, personal memory and human passage.
This sense of place is deeply rooted in the artist’s own geography: the dense, luminous vegetation of her childhood in Guatemala and the quieter light of the forests of Portugal. Yet these landscapes resist the logic of the map. They become territories of memory: intimate and, at the same time, strangely universal.
Pullin’s practice is ultimately concerned with connection: between body and landscape, rootedness and transcendence, the visible and the unseen. As she writes:
«My paintings explore the forest as both a physical and inner place. I like the way trees embody this simple paradox: they are firmly rooted in the earth while growing towards the sky. I feel that we humans are somewhat like this: we want to be in the world, to put down roots, while at the same time seeking meaning and something greater.»
In this sense, her work resonates with Carl Gustav Jung’s understanding of nature as a mirror of the unconscious, while recalling Italo Calvino’s idea of a place that does not simply tell its past, but contains it. Pullin’s canvases operate in much the same way: they hold walks, gestures, sensations and the slow passage of time within their surfaces.
Memory here is not nostalgia. It is a generative force.
To encounter Pullin’s paintings is therefore to enter a different temporal register - one governed not by speed or explanation, but by attention, growth and becoming. Her forests do not ask us to contemplate nature from a distance. They quietly remind us that we were never outside it: we are made of the same matter, the same light, the same memory that painting brings, slowly, into being…”
Federica Elena
Independent Curator
September 2026
GEOGRAFIAS DA MEMÓRIA
Existe um momento, no caminhar, em que a paisagem deixa de ser aquilo que se olha para fora. De repente, ela entra. Torna-se a própria substância dos olhos.
É a partir dessa vertigem límpida que nasce o trabalho de Stefanie Pullin. As suas pinturas não pretendem representar a floresta. Elas respiram com ela. Assumem o seu pulsar secreto, o seu funcionamento orgânico.
Expor as obras de Stefanie não é organizar quadros numa parede; é abrir fendas, sistemas de coordenadas invisíveis no ar. Na sua prática, o mundo recusa a frieza da documentação científica para se tornar um espaço da alma, uma geografia viva onde a memória, a percepção e o corpo se entrelaçam como objetos de uma cartografia interior.
Tudo nasce de uma escuta. Do caminhar, de um olhar suspenso, de uma lembrança que regressa sob a pele. Cada pintura é uma sedimentação lenta: o lugar vivido junta-se à imagem guardada no silêncio. A paisagem não é copiada, seria pouco. É recomposta por uma teia de sinais e por uma matéria pictórica densa, que torna visível o fio invisível traçado entre o mundo cá fora e o abismo cá dentro.
A viagem de Stefanie não vai para a frente. Vai para dentro e para baixo. É um movimento vertical, um mergulho terno e fundo na memória e na matéria. As suas telas tornam-se superfícies de imersão e de emergência, onde a sobreposição das camadas de tinta mimetiza a própria tectónica: o que se vê deixa adivinhar a vida secreta que esteve ali a germinar.
Florestas, pedras, musgos e raízes não são motivos decorativos: emergem na tela como organismos vivos que quase se ouvem pulsar. Há uma precisão nos detalhes, sim, mas não é para documentar; é um ato de afeto, de pertença e de uma ecologia profundamente íntima, sem qualquer intenção moralista ou pedagógica, apenas um desejo genuíno de ligação. Nelas mora também a geografia da própria artista: a vegetação densa e ardente da sua infância na Guatemala e a luz íntima das florestas de Portugal. Não são lugares num mapa. São paisagens feitas de memórias que pertencem intimamente a ela e, de algum modo, também a todos nós.
A natureza deixou de ser apenas algo a atravessar para se tornar ventre, origem, proteção e ciclo. O ato de caminhar ganhou o peso doce do cuidado e a lentidão sagrada das coisas que crescem no escuro. A pintura de Pullin inscreve-se assim numa ética do cuidado, onde a criação artística e a gestação biológica partilham o mesmo tempo suspenso, orgânico e gerador.
A própria artista sintetiza o seu processo de forma simples e direta:
«As minhas pinturas exploram a floresta como um lugar físico e interior. Gosto de como as árvores vivem esse paradoxo simples: estão bem presas à terra enquanto crescem em direção ao céu. Sinto que nós, humanos, somos um pouco assim: queremos estar no mundo, fincar raízes, mas ao mesmo tempo procuramos sentido e algo maior.»
Há aqui algo que Carl Gustav Jung compreendeu bem quando percebeu que a natureza é o espelho do nosso inconsciente mais antigo. Em O Homem e os Seus Símbolos, avisa-nos: «O homem sente-se isolado no cosmos porque já não está em contacto com a natureza e perdeu a sua identidade inconsciente com os fenómenos naturais.»
As florestas de Stefanie vêm desafiar essa solidão contemporânea. As árvores e as rochas voltam a representar a linguagem dos arquétipos. A árvore é a mãe que prende os pés à terra enquanto estende os braços para salvar o céu; a rocha é a paciência, a memória mineral do tempo geológico que já cá estava antes de nós e aqui continuará. Existe também a consciência profunda do passado do território: para além da experiência pessoal da artista, cada paisagem guarda as pisadas, os gestos e as memórias daqueles que por ali passaram antes de nós, e acolhe a promessa dos que virão depois. Não há matéria morta no seu trabalho: tudo é corpo, tudo guarda o eco da Terra e da passagem humana.
Com camadas sobrepostas de cor, linhas trêmulas e ritmos vegetais que hesitam entre a ordem e a vida selvagem, a memória não é nostalgia. É uma força geradora, um nascimento contínuo. As suas florestas não pedem uma contemplação distante ou intelectualizada: são dispositivos de travessia, superfícies onde a pintura se torna uma experiência tátil e fenomenológica.
Faz-nos pensar também nas Cidades Invisíveis de Italo Calvino, onde a cidade de Zaira «não diz o seu passado, contém-no como as linhas de uma mão, escrito nos ângulos das ruas, nas grades das janelas, nos corrimãos das escadas.» Assim é a pintura de Stefanie: a tela guarda os dias, as caminhadas, a respiração, a gestação do tempo, as lembranças mais vívidas. É uma ponte entre o que se mostra e a doçura do que fica por dizer.
Olhar para estas obras exige mudar o ritmo do corpo, a forma de respirar e de ver. Não procurar o cheiro de algo já conhecido, mas aceitar ficar dentro do mistério, na complexidade viva daquilo que cresce.
As pinturas de Stefanie Pullin não nos pedem para admirar a natureza de fora nem nos impõem discursos. Com uma delicadeza radical e quase maternal, sussurram-nos simplesmente que nunca estivemos separados dela: somos a mesma matéria, a mesma luz, a mesma memória que a pintura vai, devagar, fazendo nascer.
Federica Elena
Curadora Independente
Setembro 2026